O castelo de suas ilusões vem sem estrondo. Sem deixar rastro, virou fumaça como um sonho; e ele nem sequer percebe que esteve sonhando. -Dostoiévsky

 

Síndrome de Não me TOC

Alguns quadros de enfermidades psíquicas, parecem possuir uma enorme facilidade de penetração no entendimento popular. O Transtorno Obsessivo Compulsivo é um desses exemplos, que passou da definição psiquiátrica consensual no DSM-IV para a “boca do povo” com uma adequação notável. Com facilidade encontramos pessoas dispostas a darem explicações detalhadas sobre o chamado TOC, algumas tão satisfatórias quanto a própria definição do manual, algumas ainda mais interessantes aos ouvidos, por sua cativante narrativa envolta por dramas pessoais.

Lembrando as palavras de Freud a respeito de que sem haver alguma resistência, é impossível se fazer psicanálise, podemos desconfiar dessa avidez generalizada por saber mais a respeito do tema, e de sua aparente receptibilidade.

Um dos pilares fundamentais de manutenção de nossa sociedade, foi levantado sobre a necessidade da certeza, do confiável, do padronizável. As falhas, enganos, erros, são tidas como objetos a serem superados e esquecidos como qualquer banalidade. Dar valor a estes lapsos como tímidas amostras de verdades ocultas, passou a ser uma tarefa exclusiva dos psicanalistas. E que irônica coincidência a psicanálise demonstra, quando verifica no discurso de um neurótico obsessivo, a necessidade de fuga da verdade do sujeito para a verdade do sintoma. Um aspecto importante da lógica do obsessivo é esquivar-se com habilidade de apresentar-se como sujeito, agarrando-se com todos os esforços em apresentar exclusivamente o sintoma como seu embaixador, um discurso tranqüilizador que desimplica qualquer questionamento a respeito de si próprio e encapsula todos problemas à moda dos contos de fadas, que dizem que se há sofrimento, ele ocorre pela ação de algum personagem maligno, e não por alguma falta de habilidade do herói da estória.

Quanto a esse aspecto, encontramos na obsessão uma parte fundamental do discurso dito normal, ou seja, presente em pessoas que estão dentro das expectativas sociais, no que diz respeito a seu constante esforço em não aceitar como verdadeiro, aquilo que falha, que é sem sentido, mesmo que isso insista em emergir para demonstrar algo que organiza todo o universo daquele sujeito. E seria realmente difícil manter a coerência quando nos deparamos com idéias que assombram o obsessivo, tal como o pensamento de aniquilar um ente querido como um recurso para torná-lo ainda mais importante, reconhecido em seu lugar e amado. Já que essas ideias precisam ser desprezadas para a manutenção de uma postura aceitável para o cotidiano, toda a culpa que resulta de tal pensamento absurdo, permanece como uma assombração de origem misteriosa.

E aí tratamos da principal dificuldade em falar sobre a obsessão: a de falar sem estar ao mesmo tempo fazendo um novo discurso obsessivo, que se esforce em buscar agradar outros ouvidos obsessivos. Falar algo desde fora desse discurso normal que já é obsessivo por si só.

Quando os aparentes efeitos benéficos do discurso do obsessivo tendem a se sobrepor a qualquer organização ilógica, então o obsessivo também deve imaginar estar se vendo livre de um grande inconveniente ao fazer essa opção por seu sintoma. É o que dizem os rituais compulsivos, visto que aparecem como um alívio imediato para uma enorme tensão, a qual não se sabe dizer de quê. E que com exatidão podem ser chamados terapêuticos, por não se preocuparem com a relevância das origens, desde que se consiga um resultado imediato contra o sofrimento. Diante disso, parece surgir um hiato entre o que o paciente quer, e o que seu sintoma dele exige. Uma lacuna que diz respeito aos problemas em que apenas se sente o mal estar, sem poder dar nome a suas razões. Isso que fica como impossível de dar um nome, é o real que mantém-se alheio a qualquer capacidade de racionalização. Para tentar dar uma resposta, advém a obsessão: na tentativa de dar conta do real fazendo uso do simbólico, criando algo compreensível onde só há o indescritível. Nessa busca, o obsessivo traz um mar de idéias, e por que não, de comportamentos, que constroem um abismo imaginário que tenta engolir toda natureza deste real inominável. Toda esta intenção estaria em perfeito acordo com o benefício de seu realizador, se aquilo que acaba sendo tragado por essa boca insaciável, não fosse também o sujeito, que se precipita nesse abismo construído pela sua própria palavra, e que mantida em uma incessante repetição, torna possível exibir a todos essa palavra transformada em sintoma, mas o real do sujeito tragado para dentro do abismo, este preserva-se de ser tocado. É assim que chegam os obsessivos aos consultórios: ausentes. Vêm apenas os sintomas como seus representantes. Quando há referências a um “eu”, tratam apenas como uma invocação da idéia, não de um sujeito ativo para cada enunciação, e sim um puro objeto alvo de obrigações, culpa, e insultos.

Mas se quisermos apontar com precisão o TOC a que se referem os psicólogos, sendo fiéis aos manuais psiquiátricos, deve-se buscar sua coincidência com uma classe de sintomas e não alguma qualidade psíquica estrutural. Obviamente poderemos trilhar sua constituição a partir de qualquer estrutura neurótica, de forma alguma sendo necessária sua coincidência com uma neurose obsessiva. Pois afinal, podemos sempre chegar a resultados similares, partindo de causas diferentes. Isso abre ainda mais considerações possíveis a respeito do “TOCado”.

Um dos traços mais característicos da lógica do obsessivo, é a articulação da lógica do “ter”. Talvez os aparecimentos suficientemente explícitos em expressões comuns, onde “ter” se refere a um pênis, em: “Meninos têm pipi e meninas não têm” ou “O meu é maior”, sejam exemplos dessa lógica que trata o pênis como um excesso, posto que primeiro se concebe que o menino já é sujeito da frase, para então considerar que ele tenha alguma coisa a mais do que seu simples ser. Essa presença indissociável do corpo, certamente serve como um prático argumento para a manutenção da neurose obsessiva nos homens, se quisermos buscar uma maneira de justificar a maior participação estatística do sexo masculino na estrutura obsessiva. E exatamente por se ancorar em uma realidade irredutível, (a diferença sexual física) é que se tratará de uma luta interminável e sem sucesso.

A mulher, em contrapartida, poderá com mais facilidade sustentar sua neurose na lógica histérica do “ser”, pois teria uma facilitação a mais para não se iludir com uma idéia obsessiva de “ter” algo a mais, e verifica que os homens são na verdade, tão sujeitos à castração quanto ela, possuem a mesma falta em serem humanamente incompletos. É baseado nessa lógica da histérica que um tipo especial de ritual compulsivo muito pesquisado pelos psicólogos pode se apoiar: a compulsão por compras. Diferentemente da possível correlata nos obsessivos, que comprariam bens com os quais não se confundem, mas que evidenciam suas posses, e que tendem a demonstrar sua potência (carros, casas), a histérica compra aquilo que pode revestir a ela própria desse falo, exaltando a própria falta e transformando-a na demonstração de seu poder, cobrindo-se de roupas, jóias, sapatos, itens que mostram-na sendo poderosa, gostosa, e outros adjetivos exibem nesta passarela, como ela é exuberante.

E efetivamente as ostentações dessa falta imaginária, tornam-se os próprios métodos de sedução com as quais se maravilham os obsessivos. Onde haveria frase que deixasse mais clara a dependência em relação ao outro como meta de completude, do que em “Você não sabe a falta que você me faz!”? Ou o fascínio subliminar que as mulheres exercem ao se mostrarem cheias de pulseiras, brincos, comumente em forma de aros, símbolo máximo para o vazio.

 

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